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Trinta e cinco segundos

 

Daniel Martins de Barros

daniel@institutobemestar.com.br

Dentro do carro, olhando para todos os lados, hesitava entre passar no sinal vermelho e esperar o verde segurando a ansiedade. “Medo desgraçado.” , pensou no mesmo momento em que batiam na janela do seu carro.

Gélido, manteve os olhos fixos em frente. Olhou para o outro lado, quem sabe poderia arrancar com o carro agora, mas vinha um ônibus no contrafluxo. Voltou a encarar o nada à sua frente.

Nova batida no vidro. Traiu-se e quando deu por si já olhava a ver quem insistia em ignorar que era ignorado. Mal disfarçando o susto descobriu um garoto de pouco menos de dez anos, sorrindo e estendendo-lhe uma caixa de balas.

“Eu conheço o ritual. Um leve aceno com a cabeça.” Acenou negativamente olhando para frente. “Moleque. Quase me mata de susto. Depois leva um tiro não sabe porque. Vem mãe chorando, vem a favela toda botar fogo na rua, clamar por justiça. Justiça... Justiça... Fica abordando os outros no farol...”

“Ai, que susto, meu Deus! Esse moleque ainda está aqui.”

Pelo canto dos olhos via-o parado diante da janela do carro, exatamente como no primeiro instante, exibindo o mesmo sorriso por trás da mesma caixa de balas.

“Acho que não balancei a cabeça com suficiente energia.” Voltou a fazê-lo, dessa vez acrescentando fisionomia carregada ao gesto, novamente sem olhar para o garoto. “É o que dá querer ser simpático. Não entendem se não formos rudes como eles, não tem jeito. Tentei não ser grosseiro, veja o que deu: ficou parado aí, sem se mexer. É mesmo um povo meio duro de entender as coisas, a gente sabe, mas fica se enganando, acha que dá para conversar, explicar, tratar com educação, enfim. Mas quê? Esse é o resultado. Não dá, não dá, que se vai fazer? O dia em que eles forem educados, receberem leite e pão além de porrada, instrução invés de maus-tratos, aí quem sabe...”

“Ai, mas eu não estou falando? Que raça obtusa, será possível?”

Ao seu lado, o menino, estático.

Pela primeira vez olhou para ele. “N-ã-o! Obrigado.”, disse enfatizando o não.

“Droga, não devia ter dito obrigado. Pois já não vi que não presta ser educado com essa gente? Bom, o dito está dito. Pelo menos agora ele entendeu. ‘Não’ é uma palavra bem conhecida desse pessoal.”

“Mas o que...? Essa não. A culpa é toda minha, mesmo”

Já sem a caixa de balas, apenas o sorriso persistia, posposto agora às suas próprias mãos, vazias, estendidas quase a tocar o vidro do carro.

“Pronto! Vai sujar a janela com essas mãos imundas. Que que eu disse? Quis ser bondoso, agora agüenta. O que significa isso agora? Ah, já que eu n-ã-o quero as balas, será que eu tenho um dinheirinho para ele, é isso? Dinheiro que vai direto para o pai dele tomar pinga que eu sei muito bem como funciona esse sistema. A televisão está cansada de mostrar, todo mundo sabe. Para quê vou tirar minha carteira do bolso, procurar alguma moeda, arriscando ainda por cima ser assaltado, que nesses lugares ninguém pode ver uma carteira que é como urubu ver carniça – junta um bando e depois quem consegue afastar? – sendo que esse moleque com cara de bobo não vai ganhar nada? Vai continuar descalço. A magreza não ganhará nenhum grama sequer. Só vai deixar seu pai, ou quem quer que seja, mais bêbado, o que resultará em quê? Porrada, cintada. Isso se o velho não estiver violentando esse daí. Pensa que não? Coisa mais comum. Quer dizer, eu me exponho, mostro a carteira, me arrisco abrindo o vidro, e dou dinheiro para esse moleque patrocinar sua própria violação. E o besta ainda fica rindo. Está rindo do quê, meu filho? Rindo da desgraça? Não sabe que o que você ganha aqui é bebido, é fumado, e em nada te alimenta, não te veste, não te educa? Será que é por isso que você é tão bobo?”

Olhou novamente para o garoto. Já não tinha as mãos estendidas. Apenas o sorriso permaneceu.

“Vai entender. Não quer mais nada não? Está aí parado e rindo por quê, então? Até que é simpático. Sujinho, mas simpático, no fim das contas. Será que ele está sendo estuprado mesmo? Não devia. Deve estar rindo para me agradar.”

- Obrigado.

“Que? Ah, ele disse obrigado. Sei lá porque. Talvez por não ter sido escurraçado. Mas nada de trocados...”

Nesse momento, subitamente lembrou-se de um sermão ouvido: “Então também estes perguntarão: Senhor, quando te vimos com fome, ou com sede, ou forasteiro, ou nu, ou enfermo, ou na prisão, e não te servimos? Ao que lhes responderá: Em verdade vos digo que, sempre que o deixaste de fazer a um destes mais pequeninos, deixastes de o fazer a mim.”

Entrou em desespero; passou a procurar uma moeda, uma nota pequena, grande, que fosse, tanto fazia. Enquanto remexia os bolsos, o menino voltou-se para a calçada e começou a andar, afastando-se do carro.

“Espere aí, rapaz. Eu tenho alguma coisa aqui.” Pensava e procurava.

Inclinou-se para abrir o vidro. “Recebi de troco, está em algum lugar.” O garoto se afastava. Parou. Pensou ter ouvido algo, olhou para o carro. Viu o homem com a mão esquerda abrindo o vidro e a direita tateando os bolsos. Ele também pensou ter ouvido novamente o fio de voz do menino, ergueu os olhos.

Cruzaram o olhar. Hesitaram.

O farol ficou verde, o trânsito andou.

 

 
 
 
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