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Dentro
do carro, olhando para todos
os lados, hesitava entre passar
no sinal vermelho e esperar
o verde segurando a ansiedade.
“Medo desgraçado.”
, pensou no mesmo momento
em que batiam na janela do
seu carro.
Gélido,
manteve os olhos fixos em
frente. Olhou para o outro
lado, quem sabe poderia arrancar
com o carro agora, mas vinha
um ônibus no contrafluxo.
Voltou a encarar o nada à
sua frente.
Nova batida no vidro. Traiu-se
e quando deu por si já
olhava a ver quem insistia
em ignorar que era ignorado.
Mal disfarçando o susto
descobriu um garoto de pouco
menos de dez anos, sorrindo
e estendendo-lhe uma caixa
de balas.
“Eu conheço o
ritual. Um leve aceno com
a cabeça.” Acenou
negativamente olhando para
frente. “Moleque. Quase
me mata de susto. Depois leva
um tiro não sabe porque.
Vem mãe chorando, vem
a favela toda botar fogo na
rua, clamar por justiça.
Justiça... Justiça...
Fica abordando os outros no
farol...”
“Ai,
que susto, meu Deus! Esse
moleque ainda está
aqui.”
Pelo canto dos olhos via-o
parado diante da janela do
carro, exatamente como no
primeiro instante, exibindo
o mesmo sorriso por trás
da mesma caixa de balas.
“Acho que não
balancei a cabeça com
suficiente energia.”
Voltou a fazê-lo, dessa
vez acrescentando fisionomia
carregada ao gesto, novamente
sem olhar para o garoto. “É
o que dá querer ser
simpático. Não
entendem se não formos
rudes como eles, não
tem jeito. Tentei não
ser grosseiro, veja o que
deu: ficou parado aí,
sem se mexer. É mesmo
um povo meio duro de entender
as coisas, a gente sabe, mas
fica se enganando, acha que
dá para conversar,
explicar, tratar com educação,
enfim. Mas quê? Esse
é o resultado. Não
dá, não dá,
que se vai fazer? O dia em
que eles forem educados, receberem
leite e pão além
de porrada, instrução
invés de maus-tratos,
aí quem sabe...”
“Ai,
mas eu não estou falando?
Que raça obtusa, será
possível?”
Ao seu lado, o menino, estático.
Pela primeira vez olhou para
ele. “N-ã-o!
Obrigado.”, disse enfatizando
o não.
“Droga, não devia
ter dito obrigado. Pois já
não vi que não
presta ser educado com essa
gente? Bom, o dito está
dito. Pelo menos agora ele
entendeu. ‘Não’
é uma palavra bem conhecida
desse pessoal.”
“Mas
o que...? Essa não.
A culpa é toda minha,
mesmo”
Já sem a caixa de balas,
apenas o sorriso persistia,
posposto agora às suas
próprias mãos,
vazias, estendidas quase a
tocar o vidro do carro.
“Pronto! Vai sujar a
janela com essas mãos
imundas. Que que eu disse?
Quis ser bondoso, agora agüenta.
O que significa isso agora?
Ah, já que eu n-ã-o
quero as balas, será
que eu tenho um dinheirinho
para ele, é isso? Dinheiro
que vai direto para o pai
dele tomar pinga que eu sei
muito bem como funciona esse
sistema. A televisão
está cansada de mostrar,
todo mundo sabe. Para quê
vou tirar minha carteira do
bolso, procurar alguma moeda,
arriscando ainda por cima
ser assaltado, que nesses
lugares ninguém pode
ver uma carteira que é
como urubu ver carniça
– junta um bando e depois
quem consegue afastar? –
sendo que esse moleque com
cara de bobo não vai
ganhar nada? Vai continuar
descalço. A magreza
não ganhará
nenhum grama sequer. Só
vai deixar seu pai, ou quem
quer que seja, mais bêbado,
o que resultará em
quê? Porrada, cintada.
Isso se o velho não
estiver violentando esse daí.
Pensa que não? Coisa
mais comum. Quer dizer, eu
me exponho, mostro a carteira,
me arrisco abrindo o vidro,
e dou dinheiro para esse moleque
patrocinar sua própria
violação. E
o besta ainda fica rindo.
Está rindo do quê,
meu filho? Rindo da desgraça?
Não sabe que o que
você ganha aqui é
bebido, é fumado, e
em nada te alimenta, não
te veste, não te educa?
Será que é por
isso que você é
tão bobo?”
Olhou
novamente para o garoto. Já
não tinha as mãos
estendidas. Apenas o sorriso
permaneceu.
“Vai
entender. Não quer
mais nada não? Está
aí parado e rindo por
quê, então? Até
que é simpático.
Sujinho, mas simpático,
no fim das contas. Será
que ele está sendo
estuprado mesmo? Não
devia. Deve estar rindo para
me agradar.”
-
Obrigado.
“Que?
Ah, ele disse obrigado. Sei
lá porque. Talvez por
não ter sido escurraçado.
Mas nada de trocados...”
Nesse
momento, subitamente lembrou-se
de um sermão ouvido:
“Então também
estes perguntarão:
Senhor, quando te vimos com
fome, ou com sede, ou forasteiro,
ou nu, ou enfermo, ou na prisão,
e não te servimos?
Ao que lhes responderá:
Em verdade vos digo que, sempre
que o deixaste de fazer a
um destes mais pequeninos,
deixastes de o fazer a mim.”
Entrou
em desespero; passou a procurar
uma moeda, uma nota pequena,
grande, que fosse, tanto fazia.
Enquanto remexia os bolsos,
o menino voltou-se para a
calçada e começou
a andar, afastando-se do carro.
“Espere
aí, rapaz. Eu tenho
alguma coisa aqui.”
Pensava e procurava.
Inclinou-se
para abrir o vidro. “Recebi
de troco, está em algum
lugar.” O garoto se
afastava. Parou. Pensou ter
ouvido algo, olhou para o
carro. Viu o homem com a mão
esquerda abrindo o vidro e
a direita tateando os bolsos.
Ele também pensou ter
ouvido novamente o fio de
voz do menino, ergueu os olhos.
Cruzaram
o olhar. Hesitaram.
O
farol ficou verde, o trânsito
andou.
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